Lazer e Amizade na Infância

17/06/2017 0 comentário(s)

LAZER E AMIZADE: FORÇAS PARA A SAÚDE, A EDUCAÇÃO E O DESENVOLVIMENTO NA INFÂNCIA


Por Luciana Karine de Souza, Danielle Cristina Silveira e Michelle Araújo Rocha


Fragmento tomado de “SOUZA, Luciana Karine de; SILVEIRA, Danielle Cristina  e  ROCHA, Michelle Araújo. Lazer e amizade na infância: implicações para saúde, educação e desenvolvimento infantil. Psicol. educ. [online]. 2013, n.36, pp. 86-89. ISSN 1414-6975.”

 

Foto: Pedro Son
amizade

Falar em amizade e em lazer na infância é falar em qualidade de vida infantil. Segundo o grupo de trabalho WHOQOL da OMS, qualidade de vida é "a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto de sua cultura e dos sistemas de valores em que vive e em relação a suas expectativas, seus padrões e suas preocupações" (Patrick, 2008, p. 34). O grupo encontrou quatro dimensões mais robustas na avaliação da qualidade de vida: física, psicológica, relações sociais e meio-ambiente. É nessa última dimensão que se insere a faceta "participação em e oportunidades de recreação/lazer" (Power, 2008, p. 55).


No caso da criança, tem sido abordadas sua saúde física, mental e psicológica, bem como sua satisfação com a família e com a escola. São, ainda, desafios à avaliação da qualidade de vida infantil questões como diferenças entre grupos etários, linguagem, seu papel nos contextos dos quais participa, suas atividades cotidianas (Bernal, 2010). Em se tratando de amizade, o contexto dos grupos de pares faz parte da avaliação da qualidade de vida infantil; já o lazer pode estar inserido na avaliação das referidas atividades cotidianas que dentre as quais provavelmente constam também as de maior significância para a criança, como brincar e demais experiências de lazer (Rocha, 2011).

A avaliação da qualidade de vida na infância, ainda em fase de aperfeiçoamento, vai requerer uma abordagem que envolva a percepção da criança sobre seus estados e experiências, a percepção dos principais cuidadores (seus pais), podendo-se inquirir também seus educadores, e a percepção dos profissionais de saúde que dela tratam. O mais comum, no entanto, é o levantamento de informações sobre a criança, e não com a criança, através da abordagem à mãe (na maioria das vezes é a que mais sabe sobre a saúde da criança) e ao profissional de saúde - por exemplo, o médico (Bernal, 2010).


Se os pais pouco sabem das amizades dos filhos e pouco proporcionam lazer em família, sobre sua saúde física são capazes de informar. Todavia, se o conceito de saúde conforme preconizado pela OMS abrange o bem-estar físico, psicológico e social das pessoas, os aspectos psicossociais dos filhos são pouco conhecidos pelos pais. É nesse sentido que as experiências de lazer e de amizade podem fornecer indicadores importantes sobre a saúde psicológica e social das crianças. Carvalho (2008) já vem argumentando nesse sentido, apontando o papel do lazer na promoção da saúde. A amizade é capaz de prevenir contra depressão e ansiedade, proporcionando bem-estar psicológico mediante ajuda de todo tipo, confidência, proteção contra medos e situações estranhas, bem como valor às características pessoais do amigo - suas virtudes, também alertando para seus defeitos (Berndt & Perry, 1986; Hartup & Stevens, 1997; Newcomb & Bagwell, 1995). A amizade apresenta, inclusive, potencial para levar ao bem-estar físico quando, por exemplo, amigos se acompanham em atividades físicas, em cuidados com alimentação e na aquisição de hábitos saudáveis.


Em condições típicas, o lazer e a amizade são fenômenos participantes do cotidiano da criança, constituindo-se em forças positivas para sua saúde, educação e desenvolvimento. No entanto, se são elementos importantes para seu desenvolvimento físico, social e cognitivo na ausência de adversidades, será na presença dessas que ambos adquirirão ainda maior relevância.


No que diz respeito ao desenvolvimento na infância, cabe lembrar a importância que o suíço Jean Piaget atribuiu às relações de pares como condição para o avanço cognitivo da criança. Para esse autor, o sentimento de respeito mútuo (Piaget, 1932/1994), por exemplo, que só emerge a partir do sentimento de respeito unilateral pelos pais e pelas figuras de autoridade admirada, será capaz de fornecer à criança a habilidade de reconhecer o companheiro de brincadeira como indivíduo que também porta experiências e perspectivas, inclusive distintas, e que, portanto, para com ele interagir é necessária sua consideração, percebido como merecedor de abordagem com atitude de escuta e de negociação. Nesse sentido, é o sentimento de respeito mútuo, necessário para o surgimento e a manutenção das amizades ainda na infância.


Outro conhecido autor tanto da Psicologia como da Educação, o russo Lev Vygotsky, deu maior destaque do que J. Piaget ao fenômeno do brincar na infância. Considerando-se que o brincar é a atividade mais citada pelas crianças como experiência de lazer, as propostas de Vygotsky (1930/1998) sobre o brincar infantil tornam-se relevantes para a discussão. Segundo esse autor, o brincar possibilita, de modo mais amplo, a apropriação transformadora dos significados compartilhados culturalmente e, de forma mais específica, promove aprendizagem e desenvolvimento mediante trocas com objetos, pessoas, símbolos e por meio do exercício da imaginação e livre fantasia. Dessa forma, tanto para J. Piaget como para L. Vygotsky as relações de pares e a brincadeira impulsionam o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social. Outros autores fazem eco a esses dois grandes autores, e as pesquisas científicas ainda têm encontrado respaldo em suas afirmações.


É na vida escolar que essas questões serão mais salientes a todos. Atualmente, muito se vem discutindo sobre o bullying, por exemplo, e a esse respeito não serão aqui repetidos os problemas que ele cria para a criança, tanto para sua saúde como para sua vivência de ensino-aprendizagem. É fato que a ausência de uma rede de amizades que proteja a criança também do bullying é algo ameaçador ao desenvolvimento infantil. Todavia são poucos os trabalhos que demonstram como as relações de amizade podem contribuir para o processo de ensino-aprendizagem, por exemplo, no trabalho em grupo. Piaget (1935/1998) dedica um texto especificamente para tratar dos aspectos psicológicos do trabalho em grupo em crianças, apontando o papel desse método ao longo do desenvolvimento cognitivo infantil. Ele também dedica algumas linhas a esclarecer ao leitor-professor que o "mau aluno" em muito tem a avançar com o trabalho em grupo quando os esforços individuais do professor não surtem efeito. Nas palavras de Piaget (1935/1998), "o mau aluno que não consegue ceder diante do professor (...) vê-se tão naturalmente requisitado num grupo de trabalho que suas inibições desaparecem pouco a pouco" (p. 147). Outrossim, seria ingênuo pensar que uma tal situação bem-sucedida não tem como pré-requisito o bom entendimento entre os colegas de sala de aula, ou seja, um mínimo coleguismo mútuo.


Veja o artigo completo e suas referências em:

SOUZA, Luciana Karine de; SILVEIRA, Danielle Cristina  e  ROCHA, Michelle Araújo. Lazer e amizade na infância: implicações para saúde, educação e desenvolvimento infantil. Psicol. educ. [online]. 2013, n.36, pp. 86-89. ISSN 1414-6975.”

Disponivel em http://pepsic.bvsalud.org/pdf/psie/n36/n36a08.pdf

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